Por Daniela Espinosa

20 abr 2018, 17h00

Você já pensou que a dificuldade na contratação de pessoas com deficiência no Brasil está diretamente relacionada ao modelo educacional das nossas escolas? Você acredita que realmente alcançamos a inclusão no país?

A forma como trabalhamos a inclusão de crianças com deficiência nas escolas ainda está longe de ser a mais adequada. E isso continua a refletir na vida adulta, na preparação dessas pessoas para o mercado de trabalho.

Estes foram temas do debate “Direito, Educação e Interdisciplinaridade – Critérios para a Inclusão e Atendimento Especializado e Profissionais com Deficiência no Mundo do Trabalho”, que aconteceu no dia 19 de abril, na PUC-SP.

A Talento Incluir esteve lá e a  Carol Ignarra abordou os comportamentos necessários para a inclusão das pessoas com deficiência nas empresas e o quanto a diversidade pode trazer benefícios que vão além do cumprimento de uma obrigação legal. Confira os principais pontos do debate:

Práticas canadenses para expandir a inclusão de estudantes com deficiência nas escolas

Segundo estudos realizados na escola Upper Hill da Universidade British Columbia em Vancouver, o processo de inclusão é complexo. Entretanto, se este processo for estruturado, planejado, aplicado por etapas e construído de forma participativa entre escola, família e comunidade, o êxito pode ser alcançado.

Até mesmo o Canadá, uma superpotência em educação, ainda não atingiu o patamar adequado de inclusão escolar. Entretanto, existe um planejamento para que isso aconteça. E como eles planejam alcançar este patamar?

 

A inclusão está nos detalhes: manuais de práticas inclusivas de alunos com autismo, banheiros para todos, que atendem a todas as necessidades e cartazes de combinados sobre o respeito às diferenças em salas de aula.

E no Brasil? “Estamos hoje no Brasil, tal qual o Canadá estava nos anos 70.” afirma a Dra. Daniela Miskulin, pesquisadora da PUC-SP na área de Direito Educacional, responsável pela pesquisa.

Temos muito a evoluir, mas já existem associações que apoiam tanto as escolas públicas quanto as da rede particular, com práticas pedagógicas e de gestão inclusiva.

Programa de Educação Inclusiva no Brasil

 

A atual dificuldade em se trabalhar a inclusão escolar já faz parte do próprio entendimento que professores, sejam eles de escolas particulares ou públicas, têm sobre o assunto. O que mais se ouve destes professores é “o meu aluno de inclusão”. E os outros alunos, o que são?

Para entender melhor as boas práticas da educação inclusiva, é importante reforçar o conceito de inclusão. “Inclusão é pertencimento e todos os alunos são de inclusão escolar” afirma Carolina Videira, especialista em Educação Inclusiva e Gestão das Diferenças, fundadora da Turma do Jiló. “Não podemos deixar nenhuma criança para trás” completa.

Assim, é importante quebrar os paradigmas de que inclusão é integrar as crianças com deficiência às outras sem necessidades específicas. Não podemos relacionar inclusão ao deficiente. Além disso, integrar não é incluir. A inclusão efetiva é vista somente quando tudo atende a todos.

Enfim, ao analisar o problema da inclusão em escolas, é necessário refletir como os professores são preparados durante a sua formação pedagógica. Durante a faculdade, eles simplesmente não são preparados, na prática, a vivenciar a inclusão e se deparam com essa situação no dia a dia.

E no caso das escolas, não basta ser acessível. “A escola tem que ser acessível, alegre e aberta a todos” destaca Carolina. Mesmo que evoluirmos 1% na melhora da autonomia de uma criança, para esta criança será um grande passo no processo de inclusão.

Mas, onde estão estas crianças com deficiência? Grande parte está na rede pública de ensino e eles estão ali para se socializar, não necessariamente há um comprometimento em seu aprendizado.

Já os estudantes da rede privada, em geral, estão em escolas especiais e não na rede regular de ensino. E a relação de tudo isso com o mercado de trabalho?

Porque é difícil contratar pessoas com deficiência no Brasil?

Se você não tem nenhuma deficiência, provável que ainda não tenha convivido com uma pessoa que tem deficiência durante a sua juventude e tampouco saiba lidar com este assunto no dia a dia de trabalho.

A Talento Incluir faz uma ponte entre o mercado de trabalho e as pessoas com deficiência, mas não somente isso, também faz uma ponte social, pois muitas vezes a pessoa é inserida na sociedade por meio do trabalho.

“E depois disso, essas pessoas compõem o cenário de pessoas economicamente ativas, viram consumidoras e passam a despertar o interesse de empresas como um mercado de consumo” afirma Carol Ignarra, idealizadora e fundadora da Talento Incluir.

O propósito é p romover a equidade nas relações humanas. Muitas pessoas confundem equidade com igualdade. Mas, o que é equidade na prática? É prover condições para se alcançar um mesmo objetivo.

 

Existem 3 comportamentos para a inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho:

 

  1. Disposição –  tem que querer fazer
  2. Busca de informações – além da convivência para atender às necessidades
  3. Atitude para avançar no processo – se necessário, poder contar com o apoio de empresas especialistas no assunto

E quais os benefícios para as empresas:

  1. Obrigatoriedade legal – adequação à Lei de Cotas entre outras
  2. Produtividade – já existem indicadores que comprovam que times com diversidade dão mais resultado
  3. Inovação – a diversidade promove pensar fora da caixa e ideias diferentes.

 

Quanto ao ensino, os dados do Censo do IBGE de 2010, último estudo realizado sobre pessoas com deficiência, apresentam números críticos: 61% das pessoas não tem instrução e/ou Ensino Fundamental.

 

Menos de 20% tem uma vida economicamente ativa. Mesmo que todas as empresas atingissem a porcentagem necessária para a Lei de Cotas, ainda assim, não representaria sequer 10% do total de pessoas aptas ao trabalho.

 

As empresas que investem somente no cumprimento da lei, acabam por não atingir a inclusão efetiva. A Talento Incluir apresenta às empresas a proposta de inclusão em 4 etapas: conscientização das equipes, inclusão das pessoas no ambiente corporativo, retenção de talentos e manutenção.

 

O âmbito legal

A Convenção Internacional sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, assinada e ratificada pelo Brasil. Tem o mesmo valor que a Constituição e é soberana perante as demais leis do país no que tange o tema.

Conceitualmente as pessoas com deficiência são aquelas com impedimentos a longo prazo, podendo ser de 4 naturezas: física, mental, intelectual e sensorial. Diferente do que se imagina, a pessoa considerada com deficiência não é só aquela que tem tetraplegia, não enxerga, ou não ouve. Este conceito é inadequado.

O conceito de deficiência adotado pela Convenção é baseado no modelo social, em que a deficiência não está na pessoa, mas sim, na relação dessa pessoa com o meio em que ela está inserida.

“É fundamental a eliminação das barreiras para permitir que haja a inclusão plena” afirma a Dra. Renata Flores Tibyriça, defensora pública do Estado de São Paulo, coordenadora do Núcleo dos Direitos do Idoso e da Pessoa com Deficiência e blogueira da “A Liberdade é Azul”.Deficiente na sociedade são as barreiras e não as pessoas” completa.

Existem 5 barreiras que podem ser encontradas:

  • Arquitetônica ou urbanística
  • Comunicação ou informação
  • Atitudinais
  • Tecnológicas
  • Transporte

Existem leis e declarações que garantem o acesso à educação, a inclusão escolar, a eliminação de todas as formas de discriminação, além da garantia do aprendizado em todos os níveis desde a Educação Infantil ao Ensino Superior, inclusive ao aprendizado ao longo da vida.

É importante levar em conta as diversidades e especificidades do processo de ensino, aprendizagem do aluno e não tratar a todos com homogeneidade. Além disso, refletir sobre como efetivamente as barreiras podem ser superadas e enxergar a heterogeneidade da sala de aula.

Para tanto, é fundamental a participação e o envolvimento da família e da escola na construção da melhor solução. Existem muitas ações jurídicas que poderiam ser evitadas se o processo participativo acontecesse.

A inclusão precisa ser compreendida por todos, não somente por familiares, professores ou RH das empresas. É uma responsabilidade que deve ser compartilhada e discutida de forma ampla por todos os envolvidos. Reflita sobre o tema e analise o seu entorno. A inclusão faz parte do seu dia a dia?